segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sobre mangueiras e rosas, o centenário de Cartola

Se as rosas falassem, certamente, teriam a boêmia voz de Cartola e seu jeito malandro de ser. Um dos maiores compositores da música brasileira, Angenor de Oliveira teve seu centenário comemorado no 11º dia do mês passado, recheado de saudade e boas canções. Ainda que não tenha estudado mais que a quarta série do primeiro grau, sua obra é dotada de um nível de poesia que escola nenhuma é capaz de ensinar.

Cartola era um homem simples, adepto da “malandragem”, tinha samba cravado à pele, amor nas veias e, por erro de um escrivão, teve seu nome registrado como Angenor. Nascido no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, era o quarto dos sete filhos do casal Sebastião e Aída. Ao longo de mais de cinco décadas, agregou ao patrimônio cultural brasileiro um legado musical de valor inestimável, fazendo sucesso em todo o país com suas canções e tendo composto cerca de quinhentas ao todo.

O artista começou a vida de sambista bem cedo. Aos 8 anos já participava das festas de rua, desfilando em blocos carnavalescos e tocando cavaquinho, que aprendera com o pai. Após a morte da mãe, deixou a família e parou de freqüentar a escola para dar início à sua vida boêmia. Não tendo tido emprego fixo, Cartola trabalhou de pintor de paredes à vigia de prédios, mas foi atuando como pedreiro que surgiu seu apelido, dada sua vaidade, que o levou ao costume de usar um chapéu-coco durante as obras para não sujar os cabelos de tinta e reboco.

Cartola tinha um jeito muito característico de ser. Não se deslumbrava com a fama e não procurava agradar ninguém. Assim como seu fiel amigo e também sambista Noel Rosa, vendeu sambas no início da carreira, sendo “Que infeliz sorte” o primeiro, vendido a Mário Reis e gravado por Francisco Alves. Ao longo de sua trajetória, teve suas canções deleitadas nas vozes de grandes personalidades, como Carmen Miranda, Beth Faria, Paulinho da Viola, Cazuza, Ney Matogrosso e Chico Buarque.

Na década de 1920, os blocos de carnaval começaram a se organizar em sociedades permanentes. Paralelamente, Angenor ajudou a fundar, junto a nomes como Francisco Ribeiro e Pedro Caymmi, a Estação Primeira de Mangueira, escola de samba que regeu vida e obra do compositor. Quando questionado sobre a pouco usual combinação das cores, ele dizia: “Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor. Como o amor pode não combinar com a esperança?". O samba enredo “Chega de Demanda”, da autoria de Cartola, trouxe à escola seu primeiro prêmio de carnaval, no desfile da Praça Onze.

Em 1940, o músico foi convidado pelo compositor e maestro Heitor Villa-Lobos para a formação de um grupo de sambistas que realizariam algumas gravações para Leopold Stokowski, maestro de fama internacional. Dentre os sambas que Cartola gravou, “Quem Me Vê Sorrindo” saiu em LP comercializado somente nos Estados Unidos. A música é da composição de Carlos Cachaça, fiel companheiro de sambas e farras.

Após um longo tempo desaparecido (mas não esquecido) por motivos como doença e falta de espaço no mercado musical da época, Cartola ressurgiu por volta dos anos 50, após ter sido encontrado pelo cronista Sérgio Porto, magro e franzino, trabalhando como lavador de carros. Nessa época, começou a namorar a irmã de Carlos Cachaça, a Dona Zica, com quem se casou anos depois e, ao seu lado, compôs “As Rosas não Falam”, maior sucesso da carreira. Na década de 60, fundou, junto com a esposa, o Zicartola, na rua da Carioca. Além da ótima gastronomia, que ficava aos cuidados da esposa, contava com a presença de grandes nomes da arte popular brasileira. Apesar de não ter durado muito, o botequim chamou a atenção na época.

Mesmo com todo o brilhantismo de seus versos e o sucesso das canções gravadas sob outras vezes, Cartola só teve o seu primeiro disco, homônimo, gravado no ano de 1974, com a produção de Marcus Pereira.

O músico foi levado pelo câncer em 30 de novembro de 1980, morrendo no Rio de Janeiro. Três dias antes, recebeu a célebre homenagem de Carlos Drummond de Andrade, em uma crônica publicada pelo "Jornal do Brasil". Ainda que seus sambas tenham conquistado o gosto popular, Cartola nunca foi rico e assim morreu, morando numa casa doada pelo estado do Rio de Janeiro.

"Quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Eu quero continuar vivo e brigando pela nossa música. Sinceramente, eu não acreditava que ainda viveria esse tempo de grande justiça que o povo brasileiro – apesar dos pesares - faz à música brasileira" (Cartola, Revista Manchete, 03.12.1977).

0 comentários: