quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Machado de Assis: cem anos de saudade

Quem, após ler Dom Casmurro, não se pôs em dúvida sobre a culpa ou inocência de Capitu? Na verdade, todo o mistério fica a cargo de Machado de Assis que, há cem anos, partiu para dimensões distantes, não podendo mais dar seu último parecer sobre a trama. Escritor de estilo marcante, é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira. Ainda que tenha nos deixado há muito tempo, suas obras não permitem que ele se cale. Foi um dos responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras sendo seu primeiro presidente, fatos que levaram o local a ser conhecido como "Casa de Machado de Assis".

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 1839. A mãe, Maria Leopoldina Machado de Assis, morreu quando ele ainda era menino, tendo o pai, Francisco José de Assis, se casado alguns anos depois com Maria Inês da Silva, com quem Machado continuou vivendo após a morte de Francisco. Estudou sem muita regularidade devido à condição financeira, publicando seu primeiro trabalho no ano de 1855, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense. Dois anos depois, como aprendiz de tipógrafo, tornou-se membro da Imprensa Nacional e protegido do romancista Manuel Antônio de Almeida. Crisálidas, seu primeiro livro de poemas, só foi editado nove anos depois.

Machadinho, como era chamado na infância, foi colaborador de uma série de veículos importantes da época, atuando como cronista, contista, poeta e crítico literário e teatral, galgando, aos poucos, seu posto de renomado intelectual. Antes mesmo de se firmar como grande romancista, Machado de Assis conquistou a amizade e admiração do escritor José de Alencar. Foi a pedido dele que, em 1868, orientou o jovem Castro Alves no mundo das letras. Um ano depois, casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais. Mulher muito culta, D. Carolina apresentou ao marido os clássicos portugueses e vários autores da língua inglesa, leitura que muito contribuiu para as obras machadianas.

Em 1872, publicou o seu primeiro romance, Ressurreição, que só mais tarde entrou para a lista de títulos famosos, junto a A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. Os romances seguintes, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, são considerados obras-primas, e consagraram-no como um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa mundial. Seu último romance, Memorial de Aires, foi publicado no ano de sua morte.

Em 1904, Machado de Assis publicou o famoso soneto “A Carolina”, dedicado à sua esposa já falecida. Em junho de 1908, o escritor iniciou um tratamento de saúde, falecendo ao final do mês de setembro, aos 69 anos.


A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sobre mangueiras e rosas, o centenário de Cartola

Se as rosas falassem, certamente, teriam a boêmia voz de Cartola e seu jeito malandro de ser. Um dos maiores compositores da música brasileira, Angenor de Oliveira teve seu centenário comemorado no 11º dia do mês passado, recheado de saudade e boas canções. Ainda que não tenha estudado mais que a quarta série do primeiro grau, sua obra é dotada de um nível de poesia que escola nenhuma é capaz de ensinar.

Cartola era um homem simples, adepto da “malandragem”, tinha samba cravado à pele, amor nas veias e, por erro de um escrivão, teve seu nome registrado como Angenor. Nascido no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, era o quarto dos sete filhos do casal Sebastião e Aída. Ao longo de mais de cinco décadas, agregou ao patrimônio cultural brasileiro um legado musical de valor inestimável, fazendo sucesso em todo o país com suas canções e tendo composto cerca de quinhentas ao todo.

O artista começou a vida de sambista bem cedo. Aos 8 anos já participava das festas de rua, desfilando em blocos carnavalescos e tocando cavaquinho, que aprendera com o pai. Após a morte da mãe, deixou a família e parou de freqüentar a escola para dar início à sua vida boêmia. Não tendo tido emprego fixo, Cartola trabalhou de pintor de paredes à vigia de prédios, mas foi atuando como pedreiro que surgiu seu apelido, dada sua vaidade, que o levou ao costume de usar um chapéu-coco durante as obras para não sujar os cabelos de tinta e reboco.

Cartola tinha um jeito muito característico de ser. Não se deslumbrava com a fama e não procurava agradar ninguém. Assim como seu fiel amigo e também sambista Noel Rosa, vendeu sambas no início da carreira, sendo “Que infeliz sorte” o primeiro, vendido a Mário Reis e gravado por Francisco Alves. Ao longo de sua trajetória, teve suas canções deleitadas nas vozes de grandes personalidades, como Carmen Miranda, Beth Faria, Paulinho da Viola, Cazuza, Ney Matogrosso e Chico Buarque.

Na década de 1920, os blocos de carnaval começaram a se organizar em sociedades permanentes. Paralelamente, Angenor ajudou a fundar, junto a nomes como Francisco Ribeiro e Pedro Caymmi, a Estação Primeira de Mangueira, escola de samba que regeu vida e obra do compositor. Quando questionado sobre a pouco usual combinação das cores, ele dizia: “Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor. Como o amor pode não combinar com a esperança?". O samba enredo “Chega de Demanda”, da autoria de Cartola, trouxe à escola seu primeiro prêmio de carnaval, no desfile da Praça Onze.

Em 1940, o músico foi convidado pelo compositor e maestro Heitor Villa-Lobos para a formação de um grupo de sambistas que realizariam algumas gravações para Leopold Stokowski, maestro de fama internacional. Dentre os sambas que Cartola gravou, “Quem Me Vê Sorrindo” saiu em LP comercializado somente nos Estados Unidos. A música é da composição de Carlos Cachaça, fiel companheiro de sambas e farras.

Após um longo tempo desaparecido (mas não esquecido) por motivos como doença e falta de espaço no mercado musical da época, Cartola ressurgiu por volta dos anos 50, após ter sido encontrado pelo cronista Sérgio Porto, magro e franzino, trabalhando como lavador de carros. Nessa época, começou a namorar a irmã de Carlos Cachaça, a Dona Zica, com quem se casou anos depois e, ao seu lado, compôs “As Rosas não Falam”, maior sucesso da carreira. Na década de 60, fundou, junto com a esposa, o Zicartola, na rua da Carioca. Além da ótima gastronomia, que ficava aos cuidados da esposa, contava com a presença de grandes nomes da arte popular brasileira. Apesar de não ter durado muito, o botequim chamou a atenção na época.

Mesmo com todo o brilhantismo de seus versos e o sucesso das canções gravadas sob outras vezes, Cartola só teve o seu primeiro disco, homônimo, gravado no ano de 1974, com a produção de Marcus Pereira.

O músico foi levado pelo câncer em 30 de novembro de 1980, morrendo no Rio de Janeiro. Três dias antes, recebeu a célebre homenagem de Carlos Drummond de Andrade, em uma crônica publicada pelo "Jornal do Brasil". Ainda que seus sambas tenham conquistado o gosto popular, Cartola nunca foi rico e assim morreu, morando numa casa doada pelo estado do Rio de Janeiro.

"Quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Eu quero continuar vivo e brigando pela nossa música. Sinceramente, eu não acreditava que ainda viveria esse tempo de grande justiça que o povo brasileiro – apesar dos pesares - faz à música brasileira" (Cartola, Revista Manchete, 03.12.1977).