quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Recesso do Escritório de Histórias

Este ano, o Escritório de Histórias encerrará suas atividades de atendimento externo no dia 20 de dezembro, retormando o funcionamento normal em 05 de janeiro de 2009.
Aproveitaremos para realizar tarefas internas de organização e, é claro, descansar um pouco, para começarmos 2009 com as energias renovadas.






Desejamos a todos boas festas e... até o ano que vem!
Clique aqui para ver nossa mensagem de final de ano.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Cássia Eller: uma saudade rouca

Uma voz poderosa e rouca, capaz de agradar amantes da poesia de Cazuza e do grunge do Nirvana. A voz de Cássia Eller. Com a carreira iniciada em Brasília, tocando nos bares, botecos, boates e mesmo na rua – até em trios elétricos de música baiana, diga-se de passagem – Cássia lançou seu primeiro disco em 1990, ficando conhecida pela interpretação de “Por enquanto”, de Renato Russo. Com o público jovem, fez sucesso instantâneo. Seu visual era forte, bem como sua postura em assumir a homossexualidade em plena era do politicamente incorreto. Cássia Eller também assumiu desde logo que era uma intérprete, traçando assim um caminho diferente de outras cantoras importantes de sua geração, como Marisa Monte, que enveredou pelos meandros da composição.

Era boa de palco, tão boa que seus shows estavam cada vez mais concorridos. Não foi por acaso que sua gravadora apostou em 3 cds “ao vivo”. Um deles, o “Acústico MTV” teve quase todas as músicas alçadas à categoria de hits. Sua voz rouca podia ser doce e suave em “Luz dos Olhos” (Nando Reis) e agressiva em “Smeels like teen spirit” (Nirvana). Agradava filhos e pais que apreciavam boa música, trazendo ao conhecimento do grande público nomes da música brasileira injustamente esquecidos, como Riachão. Interpretava as canções de Cazuza e Renato Russo melhor mesmo do que eles o fizeram.

Ao apagar das luzes de 2001, Cássia Eller partiu – envolta mais uma vez em polêmica. As suspeitas de overdose foram desmentidas pelo laudo da autópsia: não havia álcool nem outras drogas em seu sangue. Foi mesmo um ataque cardíaco, provavelmente decorrente do excesso de trabalho. Naquele 29 de dezembro, uma geração ficou órfã. A lacuna deixada pelo silêncio da voz rouca de Cássia não poderá ser preenchida, tal qual Elis Regina, outra grande cantora silenciada precocemente e que não teve substituta. Poucos dias antes, no dia 10 de dezembro, Cássia Rejane Eller havia completado 39 anos e fazia planos: “Esta semana mesmo já comecei a ligar para umas pessoas e pensar no próximo álbum", declarou numa das últimas entrevistas que concedeu. Deixou 6 discos, um filho, uma companheira notável, fãs inconsoláveis e uma saudade tão rouca como sua voz.

Mais sobre Cássia Eller:
http://cassiaeller.br.tripod.com/cassiaeller/
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u469197.shtml

Texto de Isabella Verdolin

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Brasil: o nascimento de uma nação

Há 200 anos, a cidade do Rio de Janeiro viu sua estrutura e vida cotidiana mudarem significativamente. Quase que sem aviso, milhares de nobres portugueses aportaram no litoral carioca e ocuparam o território da capital, deixando “requintadas” marcas por onde passavam. Muitos brasileiros foram despejados de suas casas ou viram o preço do aluguel imobiliário subir demasiadamente, obrigando-os a abandonar o local onde moravam.

A transferência da corte portuguesa para o Brasil, até então sua colônia, trouxe para o país a idéia de nação, além de abrir caminhos para a futura independência. Supõe-se que a capital carioca foi a escolhida para instalar a corte pelo fato de ser a cidade mais rica de todo o império, perdendo apenas para Lisboa.

Inicialmente, a nobreza aportou na Bahia, em janeiro de 1808, devido a uma tempestade ocorrida durante o percurso. Chegando ao Rio de Janeiro, em 07 de março de 1808, a família real não encontrou um grande palácio para acomodá-la, fazendo com que os casarões fossem adaptados. Naquela época, as casas dos cariocas ricos eram grandes, mas sem muito luxo em função da lei que proibia a exibição de riqueza, impondo o respeito a certas regras arquitetônicas. O dinheiro era, então, investido na estrutura das igrejas da cidade que, até hoje, ostentam um toque de nobreza. Com a chegada da corte portuguesa, esta lei foi extinta, permitindo que a elite reformasse e aumentasse os seus palacetes.

A arquitetura do Rio de Janeiro foi rapidamente modificada, sem muito planejamento, para se tornar sede do império, ocasionando o aumento de uma série de impostos públicos por parte de D. João. O custeio contou também com o apoio da família real, que financiou pequenas obras da nova corte. A presença da nobreza de Portugal e o crescimento da cidade propiciaram o aumento estrondoso, em pouco tempo, da população de escravos no Brasil, fazendo com que os negros representassem cerca de três quartos da população carioca em 1811. Os escravos eram os principais elementos das modalidades de comércio surgidas na época, seja como agentes ou como mercadoria. O “brilho” da nobreza que aportou na cidade maravilhosa em 1808 contrastava com as precárias condições de vida de grande parte da população, e, com o aumento repentino da demanda de água, comida e moradia, as carências tornaram-se ainda mais evidentes.
Devidamente instalado na nova corte do império português, D. João fez o possível para voltar à rotina, retomando os despachos com ministros, a recepção de súditos e aparições públicas. Uma de suas acomodações foi a Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, um presente do comerciante Elias Lopes, logo após o desembarque dos portugueses. Ao contrário do que muitos afirmam, D. João permaneceu no Brasil, mesmo após a morte da mãe e sua nomeação como rei de Portugal, porque tinha medo de perder o território caso retornasse à sua terra natal.

A vinda da família real para o Brasil trouxe consigo uma série de mudanças para a cidade do Rio de Janeiro, que influenciaram toda a nação. Uma das principais medidas tomadas por D. João foi a concessão de autonomia administrativa ao país, em 1815. O príncipe regente de Portugal decretou a suspensão do alvará de 1765, o que permitiu a criação de indústrias em território colonial. A abertura dos portos, no entanto, prejudicou o desenvolvimento da indústria nacional, devido ao grande número de importações e à conseqüente presença de artigos ingleses que, além de bem elaborados, possuíam preços acessíveis. O fato do Brasil ter sido colonizado por Portugal deixou algumas heranças negativas, como as diferenças sociais ocasionadas pela escravidão e relações injustas de poder, péssimas condições de vida aos menos favorecidos economicamente e a corrupção, muito comum em território português.

Por outro lado, a transferência da corte para a colônia possibilitou conquistas importantes. Inicialmente, os portugueses focavam-se em explorar apenas o litoral brasileiro, deixando um pouco de lado o interior. A chegada da família real contribuiu positivamente para o mapeamento geográfico do território, sendo, inclusive, criado um Arquivo Militar, que dispunha de uma variedade de mapas e cartas geográficas e topográficas, além de contar com uma equipe de engenheiros, arquitetos e desenhistas. O Banco do Brasil foi criado em outubro de 1808, com o intuito de financiar a indústria até então proibida no país. Naquele momento, a imprensa tornou-se uma necessidade de estado, ocasionando a criação da Imprensa Régia que, ao longo dos anos, recebeu várias denominações, sendo atualmente chamada de Imprensa Nacional (IN). O primeiro jornal brasileiro foi “A Gazeta do Rio de Janeiro”, seguido por uma série de publicações que contribuíram para a formação da nossa imprensa e da opinião da sociedade da época. Entretanto, a liberdade de imprensa ainda não existia e, somente após a Revolução do Porto, em 1820, D. João acabou com a censura nos periódicos.

Antes de 1808, Portugal não permitia a criação de universidades em suas colônias. Após a chegada da família real no Brasil, criou-se a Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), dando o primeiro passo para a independência cultural brasileira. Instalada no Hospital Real Militar, inicialmente, a Fameb contava com médicos militares que atuavam como professores e, somente anos mais tarde, vieram os médicos civis. Em novembro do mesmo ano, D. João fundou a Escola de Anatomia, Cirurgia e Medicina, a atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como na época os estudos da medicina não eram muito avançados e não se sabia, ao certo, a causa de muitas doenças, a prioridade era a eliminação dos sintomas, passando aos alunos um conhecimento mais observatório do que científico. No ano de 1811 foi inaugurado o Jardim de Aclimação, atual Jardim Botânico que, inicialmente, tinha a função de preservar algumas especiarias vindas das Índias. Cinco anos depois, foi fundada a Academia de Belas-Artes e, em 1818, o Museu Real, mais tarde chamado de Museu Nacional. A corte portuguesa trouxe consigo mais de 60 mil livros da Biblioteca Real, o que contribuiu, de forma significativa, para a criação da Biblioteca Nacional. Ao retornar para Portugal em 1821, D. João levou consigo uma parte dos manuscritos integrantes da biblioteca, o que não impediu que ela fosse considerada, atualmente, a oitava maior do mundo e a maior da América Latina.

Para a elaboração desse texto, foram utilizados os seguintes veículos como referência:
- Revista de História da Biblioteca Nacional, edição nº 28, janeiro de 2008:
. O outro lado de 1808, Guilherme Martins Costa e Marina Lemle
. De mapa em mapa, Íris Kantor
. Vida dura em casa nova, Jurandir Malerba
- Folha de São Paulo, Especial 200 anos da chegada da família real, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/familiareal/

Texto de Natália Boaventura