segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

João: um pequeno nome, dois grandes autores

O nome “João” pode ser definido por muitos como comum, simples, desses que se vê aos montes. Mas é um nome forte e possui uma envergadura que suas poucas letras podem não demonstrar logo de início. Em nossa literatura, por exemplo, encontramos além de Guimarães Rosa, dois escritores de nome “João” que nasceram no mês de janeiro e que não só revolucionaram a literatura brasileira, como mudaram seu curso e marcaram época. João Cabral de Melo Neto, nascido na capital de Pernambuco ao nono dia do mês em 1920, passou a infância em engenhos de açúcar, tendo a vida no campo influenciado profundamente o poeta. João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 em solo baiano, na Ilha de Itaparica, em 1941, tendo vivido em Aracaju (SE) quando criança. Entre semelhanças e notórias distinções, os escritores possuem uma rica coletânea de obras, lidas e relidas até os dias atuais, que retratam um Brasil de muitos brasis.

João Cabral, além de poeta, foi um importante diplomata, tendo ingressado na carreira em 1945 por meio de um concurso. Durante quarenta anos, viveu no exterior, desenvolvendo boa parte de sua obra literária em países como Espanha, França, Inglaterra, Senegal, Equador e Portugal. Na Europa, o poeta nunca se esqueceu de sua terra natal e ampliou suas impressões acerca do Brasil. Suas vivências na Espanha, especialmente, fizeram com que o olhar de Cabral se voltasse para a poesia e o romanceio popular do Nordeste. Cabral tinha também um lado mais artístico, em que falava de talentos como Miró e Paul Valéry. Durante os anos em que esteve vivo, publicou títulos que se destacaram no cenário da literatura e foram traduzidos para várias línguas, como Pedra do Sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem Plumas (1950), Quaderna (1960), Morte e vida severina (1965) e Auto do frade (1984). O poema dramático “Morte e vida Severina” trouxe reconhecimento popular ao escritor, tendo sido musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), na década de 60.

A poesia de João Cabral é caracterizada pela objetividade, muitas vezes marcado por temas sociais e, em certos casos, pela tendência ao surrealismo. Em toda a sua obra, o poeta apresentou certa preocupação com a estética da poesia, sendo autor de escrita mais racional, de linguagem concisa e elíptica. Apesar de ter tido contato com a variedade sonora dos ritmos pernambucanos, a musicalidade não esteve muito presente em seus versos. Por suas obras, João Cabral recebeu uma série de prêmios importantes nacionais e internacionais ao longo de sua carreira. Em agosto de 1968, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Assis Chateaubriand, cadeira número 6. Em 1990, foi eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que o faria perder a visão gradativamente, o poeta anunciou que iria parar de escrever. Aos poucos, foi perdendo também a vontade de falar, argumentando não ter muito mais o que dizer. João Cabral de Melo Neto morreu em 1999, no dia 09 de outubro, deixando saudade e um extenso e rico conjunto de palavras.

O segundo João conta com o extenso sobrenome de Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, sendo mais conhecido como João Ubaldo, somente. Tendo crescido sob a rígida educação do pai, iniciou sua carreira jornalística no “Jornal da Bahia” em 1957 e, posteriormente, foi transferido para “A Tribuna da Bahia”, no qual chegou a exercer o cargo de editor-chefe. Mais tarde, em 1981, iniciou colaboração com o jornal “O Globo”, no qual publica crônicas uma vez por semana, até os dias atuais. Apesar de ter se formado em Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), nunca chegou a exercer a profissão. Além disso, foi professor da Escola de Administração e da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia e professor da Escola de Administração da Universidade Católica de Salvador. Em 1964, época em que o Brasil vivia um contexto de efervescência política, o escritor partiu para os Estados Unidos, em razão da conquista de uma bolsa para fazer seu mestrado em Administração Pública e Ciência Política na Universidade da Califórnia do Sul. O movimento revolucionário não tinha conhecimento dessa viagem e, durante sua ausência, o esquerdista João Ubaldo teve sua imagem divulgada em redes da televisão baiana, juntamente aos dizeres “Procura-se”. Confirmando certo viés político, lançou, em 1981, Política, que é recomendado como bibliografia por inúmeras faculdades até hoje.

Apesar de também ter escrito livros infantis, obteve destaque através da publicação de textos mais elaborados. Viva o povo brasileiro, romance iniciado em 1982 e editado dois anos depois, é uma de suas principais obras, tendo recebido o "Prêmio Jabuti" e o Golfinho de Ouro, do governo do Rio de Janeiro. No carnaval de 1987, o livro foi escolhido como samba-enredo da escola Império da Tijuca. João Ubaldo publicou uma série de títulos de sucesso, como Setembro não tem sentido (1968), Sargento Getúlio (1971), O sorriso do lagarto (1989), A casa dos budas ditosos (1999), Miséria e grandeza do amor de Benedita (primeiro e-book lançado no Brasil, em 2000) e Diário do Farol (2002). Além de várias de suas obras terem sido traduzidas para outras línguas, algumas foram adaptadas para o cinema, televisão e teatro. Tal como Cabral, João Ubaldo foi largamente premiado, inclusive internacionalmente. Grande retratador do país, tem um estilo permeado por ironia e sensualidade ao retratar o contexto social do Brasil, além de pitadas de humor mesmo em narrativas densas. Entre a realidade crua e aquela travestida da tipicidade brasileira, o autor reinventa o país e sua gente, sendo considerado, por muitos, como um porta-voz da nação.

Ver o Brasil através dos textos destes dois autores de nome João nos fornece impressões que ora se assemelham e ora se distinguem, seja pelo estilo de cada um, pela trajetória de vida e pelo modo de olhar o país e o mundo. São escritores que falam com maestria de um Brasil que pode ser muitos brasis ao mesmo tempo, resgatando a grandeza e o mistério existentes na simplicidade. Algo que o nome “João” retrata com exatidão.

Texto de Natália Boaventura e Isabella Verdolin

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