Apesar da origem do carnaval ser um tanto incerta, a primeira comemoração carnavalesca do Brasil ocorreu no ano de 1641, em homenagem ao rei Dom João IV, com a organização do governador Salvador Correia de Sá e Benevides. Originalmente, carnaval consiste em um conjunto de festejos populares caracterizados pela liberdade de expressão e movimento, provenientes de ritos e costumes pagãos. Apesar de ocorrerem em diversos países, as festividades adquiriram características distintas mundo afora.
O carnaval do Brasil é famoso pela variedade de ritmos, cores e etnias. Ao contrário das festas no Rio de Janeiro e Salvador, que trazem consigo um discreto viés comercial, o carnaval comemorado em Recife e Olinda é centralmente popular. Não existe nenhuma espécie de sambódromo e escolas de samba. Grupos formados por amigos e familiares, conhecidos como troças, saem às ruas. Todos os eventos são gratuitos, não existem abadás e o circuito a ser percorrido não é previamente estabelecido, havendo apenas os dias para o começo e fim. Além disso, os ritmos são basicamente tocados pelos próprios foliões que, como bom carnavalescos, “dançam conforme a música”.
Recife é conhecida como a capital multicultural brasileira, abrigando, em seu carnaval de rua, músicas e danças provindas do frevo, maracatu, caboclinho, ciranda, coco-de-roda, samba, afoxé, rock, reggae e manguebeat. Graças à harmoniosa combinação entre diversidade, história, lirismo e irreverência, as festas pernambucanas estão cada vez mais sendo reconhecidas como de grande importância turística e cultural no Brasil.Com muita animação, o carnaval começa uma semana antes da data oficial. A festa é aberta com a entrega simbólica da chave da cidade ao Rei Momo e à Rainha do carnaval na Praça do Marco Zero. No dia seguinte, logo no começo da manhã, mais de um milhão de foliões reúnem-se no centro da capital com o tradicional bloco Galo da Madrugada, o maior do mundo segundo o Guiness Book. Fundado em janeiro de 1978, o bloco surgiu com base na idéia de resgatar o carnaval de rua, que nessa época havia perdido força e adeptos.
Desde a abertura até a quarta-feira de cinzas, o comando da folia fica a cargo dos foliões, embalados pelos blocos de diversos ritmos. No cais da rua Alfândega, às margens do rio Capibaribe, localiza-se o palco do “Festival Rec Beat”, no Pólo Mangue, que promove o encontro da músicas tradicional com tendências modernas. Outro evento bastante apreciado pelos foliões e que chama a atenção da mídia é a “Noite dos Tambores Silenciosos”, no Pólo Afro, em que é realizada uma homenagem aos escravos por meio da mistura do candomblé e dos maracatus.
O Frevo em todas as suas formas é o mais reconhecido dos ritmos do carnaval pernambucano, reunindo multidões que dançam ao som da orquestra. A palavra vem de “ferver”, que na linguagem simples do povo, era pronunciada “frever”, mas sempre significou agitação, fervura, efervescência. Seja “Frevo de Rua” (somente instrumental), “Frevo Canção” (típico frevo de rua, com andamento melódico) ou “Frevo de Bloco” (com orquestra de pau e cordas), a agitação toma conta de Recife e Olinda, atraindo foliões de todas as partes do Brasil e do mundo, sem deixar de ter espaço para os habitantes de Pernambuco, com presença de artistas locais, nacionais e internacionais e grandes orquestras.
Na cidade de Olinda, o carnaval atinge um caráter ainda mais popular do que em Recife, preservando as mais puras tradições da folia pernambucana e nordestina. Desde 1977, a comissão julgadora, a passarela e o palanque das autoridades foram abolidos do carnaval da cidade, o que permitiu à festa assumir o perfil eminentemente popular que a caracteriza hoje. Todos os anos, centenas de agremiações carnavalescas e foliões desfilam pelas ruas e ladeiras da cidade.
Festa sem censuras, as sátiras políticas encontram-se muito presentes no carnaval de Olinda, tanto na forma de marchas, quanto na de bonecos e fantasias. Nos últimos anos, tornou-se bastante comum a presença de ícones como Osama Bin Laden, George Bush, Lula e outras figuras que são destaque no noticiário nacional e internacional. Os blocos carnavalescos da cidade concentram-se na esquina conhecida como “Quatro Cantos”, localizada entre as ruas Prudente de Moraes, do Amparo, Bernardo Vieira de Melo e Ladeira da Misericórdia.
Ao som de orquestras de frevo, maracatu, coco-de-roda, pau-e-corda, ciranda e caboclinho, Olinda se transforma em um grande baile a céu aberto, atraindo pierrôs, colombinas e bonecos gigantes para a festa.Datados das procissões do século XV, os bonecos gigantes são herança européia e, enquanto lá, acompanhavam os cortejos religiosos, aqui, enfeitam a maior festa pagã. A cada ano, são criados bonecos de novos tipos e, atualmente, totalizam mais de cem personagens pelas ladeiras da cidade. Na Terça-Feira Gorda, assim chamada por ser o último dia antes do início da Quaresma, os bonecos gigantes, com mais de 3 metros de altura, se reúnem entre os largos de Guadalupe e do Varadouro, encontro que atrai a atenção de milhares de foliões e acrescenta originalidade e animação à festa. São os personagens mais famosos do carnaval de Olinda e considerados uma marca da festa na cidade.
O boneco mais famoso de Olinda, o “Homem da Meia-Noite”, foi o primeiro a sair às ruas, em 1932. Comandou a festa sozinho até 1967, ano em que surgiu a “Mulher do Dia”, sua companheira, dando espaço para, em 1974, ser criado o “Menino da tarde”, completando a família. Atualmente, o “Homem da Meia-Noite” é o responsável por dar início ao carnaval olindense à zero hora do sábado de Zé Pereira, que passou a ser assim nomeado ainda no Brasil Colônia, quando grupos de portugueses, os “Zés Pereiras”, saíam às ruas tocando grandes tambores e anunciando o começo da festa.
A folia termina na quarta-feira, com o tradicional desfile do bloco “Bacalhau do Batata”, fundado em 1965. Sua origem é ligada ao garçom Isaías Ferreira da Silva, o Batata, que achava justo poder brincar o carnaval após quatro dias de trabalho. O bloco percorre as ruas de Olinda até a Praça da Prefeitura e, tradicionalmente, sempre reuniu profissionais que trabalharam durante os quatro dias do carnaval, como taxistas, faxineiros, policiais e motoristas de ônibus. Apesar de Isaías ter falecido no ano de 1993, sua idéia vingou e, atualmente, grande parte da classe média integra o bloco, que continua mantendo a mesma animação.
Texto de Natália Boaventura e Isabella Verdolin
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
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