sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Carnaval carioca

Internacionalmente, o Brasil é famoso por seu futebol e carnaval. Ainda que o futebol não dê mais tantas alegrias, o carnaval continua sendo uma das festas mais bonitas e ricas em diversidade de todo o mundo. Reunindo ritmos, tradições, cores e costumes dos mais diferenciados, o “país do carnaval” quase pára durante o período de festas, tamanha é a magnitude e a alegria que a ocasião promove. A cidade do Rio de Janeiro, em especial, atrai turistas de todas as partes do globo, encantados com as músicas e os desfiles que ocorrem todos os anos no Sambódromo.

No Brasil, o primeiro baile de máscaras aconteceu no Rio de Janeiro, no ano de 1840, no Hotel Itália, pela influência dos famosos bailes da Europa. Apesar do sucesso dos bailes de salão, foi através do povo que o carnaval brasileiro adquiriu as principais características que carrega hoje. Os blocos e cordões, grupos formados por pessoas de várias raças e origem humilde que, posteriormente, fizeram nascer as escolas de samba, surgiram ainda antes da passagem para o século XX. Os primeiros grupos carnavalescos, chamados de “Grandes Sociedades”, foram criados em 1855 e, além de se reunirem para a comemoração do carnaval com músicas e carros alegóricos, estavam também ligados a movimentos cívicos, sendo os precursores da festa atual. O grande marco do carnaval de rua talvez tenha sido a marchinha de Chiquinha Gonzaga “Ô Abre Alas” (1899) que, além de ter sido inspirada num cordão carnavalesco do bairro Rosa de Ouro, foi a primeira música feita especialmente para o carnaval. Como capital que era, o Rio de Janeiro ditava a moda – e hoje ainda é referência nos meios de comunicação. Com letras divertidas, melodias simples, alegres e andamento acelerado, as marchinhas caíram no gosto popular e muitas vezes funcionaram como uma espécie de crônica musical da cidade. Com o novo século, as inovações vieram também no carnaval. Em 1907 surgiu o “Corso”, um desfile de automóveis que, durante as primeiras décadas do século XX, foi uma das principais atrações do carnaval carioca, trazendo mulheres fantasiadas, flores, confetes e serpentinas.

A primeira geração do samba, formada por nomes como Donga e Pixinguinha, ficou conhecida como o “samba da Cidade Nova”, que se aproximava levemente do choro. Como gênero musical, só se consagrou quando foi gravado pela primeira vez, no ano de 1917. O “samba da Cidade Nova” era mais apropriado para a dança de salão, enquanto que o desfile de carnaval, propriamente dito, pedia músicas que movimentassem o corpo e permitissem que os foliões andassem e brincassem de forma simultânea. A turma de sambistas do bairro Estácio de Sá criou o “Deixa falar” em 1928, um bloco cujos sambas entoados assemelhavam-se aos atuais e que acabou sendo conhecido como “escola de samba”, pelo fato de seus fundadores serem os “professores” do novo ritmo.

Nos anos seguintes, as marchinhas e o samba dividiram pacificamente o espaço na música brasileira e nos carnavais da cidade maravilhosa. Consagrada nas vozes de Carmen Miranda, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Mário Reis, Jorge Veiga, Almirante e Black-out, a marchinha viveu seus anos áureos na década de 30. Grandes compositores renderam-se aos seus encantos e perpetuaram sucessos, como “Com que Roupa?”, de Noel Rosa; “Linda Morena”, de Lamartine Babo; “Eu Dei”, de Ary Barroso e “Chiquita Bacana”, de João de Barro, o Braguinha, entre tantas outras que são entoadas até hoje e não podem faltar no carnaval brasileiro.

O Carnaval passou a ser assunto do Estado brasileiro quando o governo Vargas criou Departamentos de Turismo nos estados, que passaram a ter um papel cada vez mais centralizador das folias de carnaval. As escolas de samba foram um importante canal de comunicação do governo com as camadas mais pobres da sociedade, instituindo em 1933 o famoso Rei Momo e, quatro anos depois, lançando um decreto que determinava às escolas de samba que dessem um caráter histórico e patriótico aos sambas-enredo.

Durante as décadas de 1940 e 1950, as escolas se desenvolveram gradativamente e buscavam, em meio a toda a população, maior aceitação e estruturação de uma imagem mais sólida. Nos anos 60, firmam-se como elemento não só cultural, mas também rentável, o que levou a Secretaria de Turismo a estabelecer a venda de ingressos para o desfile. A partir de então, o carnaval carioca começou a adotar, cada vez mais, um viés comercial e, além da cobrança para que os foliões pudessem assistir aos desfiles, a vendagem dos discos com gravações de sambas-enredo cresceu muito e o carnaval passou a ser filmado para divulgação no exterior.

No início dos anos 60, a popularização atingida pelos desfiles de carnaval fez com que o samba-enredo ascendesse e as marchinhas entrassem em declínio. O compositor José Roberto Kelly foi um dos últimos que obtiveram sucesso no ramo, com as famosas “Cabeleira do Zezé” e “Mulata Iê-Iê-Iê”. Após outorgado o AI-5 e a censura instalada sobre todas as áreas, poucos se arriscaram a compor marchinhas. Seu último marco foi “Balancê”, de João de Barro e Alberto Ribeiro que, apesar de ter sido lançada em 1937, só atingiu o sucesso nos anos 80, na voz de Gal Costa. Ainda assim, as marchinhas ficaram eternizadas na memória do carioca e de todo o Brasil, animando carnavais até os dias atuais.

Para otimizar a montagem das arquibancadas e promover um carnaval mais organizado, a Passarela do Samba, posteriormente chamada de Passarela do Professor Darcy Ribeiro e popularmente conhecida como Sambódromo, foi consagrada na Avenida Marquês de Sapucaí, no ano de 1983. A inauguração se deu durante o governo de Leonel Brizola e o projeto traz o nome do famoso arquiteto Oscar Niemeyer. No ano seguinte, as grandes escolas fundam a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (LIESA) promovendo um caráter mais empresarial e buscando maior autonomia na organização dos desfiles. As escolas de samba são uma forte manifestação cultural que vem se desenvolvendo e se modificando ao longo dos tempos. O preparo e trabalho árduo ocorrem durante todo o ano, desde o término do desfile até o início do próximo no ano seguinte. Cada vez mais aprumadas de técnica, emoção e alegria, são um marco na história do carnaval carioca. Todos os anos, uma série de escolas de samba enfeita o Sambódromo e encantam foliões de todas as partes, como Portela, Salgueiro, Mangueira, Beija-Flor, Mocidade Independente, Império Serrano, Vila Isabel, Estácio, Imperatriz Leopoldinense, Grande Rio, Porto da Pedra, Unidos da Tijuca e Viradouro. Ainda que o glamour da folia esteja concentrado na Passarela Professor Darcy Ribeiro, o carnaval de rua ainda é palco das maiores e mais originais manifestações culturais. Embora os cordões já tenham sido extintos há algum tempo, o “Cordão da Bola Preta” mantém o nome até os dias atuais, sendo um dos mais tradicionais clubes da festa carioca. Muitos blocos oficias (como “O Bafo da Onça” e “Boêmios do Irajá”) e não oficiais (como “Suvaco de Cristo” e o “Monobloco”, recém criado) existem na cidade maravilhosa e arrastam multidões, expressando o que o carnaval de rua tem de melhor.

Texto de Natália Boaventura e Isabella Verdolin

Para saber mais sobre o carnaval do Rio de Janeiro, acesse :
http://liesa.globo.com
http://www.papodesamba.com.br
http://www.cordaodabolapreta.com.br

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