terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Verão: estação Bossa Nova

Não por acaso, Garota de Ipanema é a primeira melodia que nos vem à cabeça quando pensamos em Bossa Nova. Além de ser o grande sucesso deste estilo musical, reúne os elementos típicos da estação que é a mais quente no Brasil. Nos idos da década de 50, jovens sedentos por música – boa música – se reuniam para tocar e cantar. Muitos deles compunham. E assim, em tardes banhadas de sol, à beira mar no Rio de Janeiro, foi nascendo a Bossa Nova.

Chegadas

No verão, no mês de janeiro, vieram ao mundo dois grandes nomes desse ritmo: Tom Jobim e Nara Leão. Ele chegou primeiro, no dia 25, em 1927. Ainda menino, aprendeu a tocar piano e mais tarde, fascinado por diferentes sons, teve aulas de flauta, harmônica de boca e violão. Apesar de ter ingressado na área de arquitetura, logo percebeu que seu talento para música não podia ser desperdiçado e, como pianista, trabalhou na Rádio Clube do Brasil e passou pelas principais casas do Rio de Janeiro. Com o objetivo de se aperfeiçoar como músico, posteriormente, teve aulas de orquestração com Leo Peracchi e Tomás de Terán. Em 1952 trabalhava como arranjador na Continental e foi nessa época que começou a compor suas próprias canções. Incerteza foi a primeira de muitas e belas músicas que estavam por vir. O disco lançado em 1958, “Canção do Amor Demais”, com composições de Tom e Vinicius na voz de Elizeth Cardoso e que, além da orquestra, tiveram o acompanhamento do violão de João Gilberto em algumas faixas, é considerado o marco inaugural da Bossa Nova. No ano seguinte, o LP “Chega de Saudade”, interpretado por João e com arranjos e direção musical de Tom, delineou os rumos que a música popular brasileira iria tomar dali em diante.

Nara Leão nasceu em 1946, no dia 19. Na adolescência, teve aulas de violão com Sólon Ayala e Patrício Teixeira. Sua timidez não impediu que despontasse como musa da Bossa Nova, inovando estéticas e mostrando-se engajada social e politicamente, tendo a voz como a sua principal arma. Quando estreou como cantora, o Maestro Jobim já era conhecido internacionalmente, tendo sido destaque do Festival de Bossa Nova do Camegie Hall, na cidade de Nova York. 1963 trouxe “Garota de Ipanema” e a estréia de Nara Leão, no musical “Pobre Menina Rica” de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Provocou polêmica em seu primeiro LP, lançado um ano depois, devido ao repertório diferenciado que, além da Bossa Nova, incluía diversos “sambas-do-morro” de Cartola e Nelson Cavaquinho. Ao final de 64, participou do espetáculo “Opinião” ao lado de Zé Kéti e João do Vale, que, além de ter sido um dos mais importantes da época, foi também um dos pioneiros a contestar o regime militar. Entre outros prêmios, venceu o Festival da TV Record de 1966 cantando A Banda, de Chico Buarque, que dividiu o primeiro lugar com Disparada, na voz de Jair Rodrigues. No ano de 1968, Nara Leão fez parte do movimento Tropicalista, participando do famoso disco “Tropicália ou Panis Et Circences”. Nos anos posteriores, passou um tempo na França e, sob o charme e encantamento francês, voltou à dedicar-se à Bossa Nova, gravando dois LPs formados por esse repertório. Depois disso, levou o ritmo à Nova York, Europa e Japão, tendo, neste último, um público muito cativo.

Tom Jobim aproveitou seu sucesso nos Estados Unidos e por lá compôs muito - inclusive em inglês, gravou discos, participou de vários shows e fundou a Corcovado Music, sua própria editora. Além de gravar com Frank Sinatra, um dos grandes mitos americanos, Tom fez parceria com célebres cantores brasileiros, como Elis Regina, Miúcha e Edu Lobo. Era um ecologista ativo e não deixava de passear no Central Park quando estava em Nova York. Seus discos sempre trouxeram belas canções sobre a temática da preservação ambiental, como “Urubu” (1976) e “Passarim” (1987).

Nara Leão foi quem partiu primeiro. Em 7 de junho de 1989, aos 47 anos, faleceu devido a um tumor inoperável no cérebro, deixando a Bossa sem a sua musa de belos joelhos. O CD “Antônio Brasileiro”, o último de Tom Jobim, foi lançado em dezembro de 1994, pouco antes de sua morte no dia 8, nos Estados Unidos. Após uma cirurgia para extrair dois tumores na bexiga, Tom faleceu em decorrência de um coágulo sanguíneo parado em seu pulmão, tendo sido enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Partidas

O verão brasileiro também sofreu com o silêncio. Duas mulheres de timbre único partiram deste mundo no mês de janeiro, de maneira inesperada e trágica: Maysa e Elis Regina.

Nascida em 6 de junho de 1936, Maysa Monjardim era dona de dois olhos que podiam expressar muito mais que as palavras que lhe saíam da boca. “Os olhos de Maysa são dois não sei o quê, dois não como diga, dois Oceanos Não-Pacíficos”, assim escreveu Manuel Bandeira em seu livro "Estrela da Vida Inteira". Cantora inquietante e compositora notável, Maysa, filha de uma rica e tradicional família do Espírito Santo, gostava de romper os padrões da época e, aos 18 anos, casou-se com André Matarazzo, quase 20 anos mais velho que ela. Com ele, teve seu único filho, Jayme Monjardim, que, mais tarde, tornou-se diretor de novelas da Rede Globo de Televisão. Seu primeiro disco, "Convite para ouvir Maysa” foi lançado em quatro volumes entre os anos de 1956 e 1959 e foi um sucesso, com canções como Ouça, Meu mundo caiu e Adeus. O marido não aceitava sua carreira e, após muitos desentendimentos, o casamento chegou ao fim. Maysa teve grande dificuldade em lidar com a separação e, desde então, começou a ter problemas com bebidas e a aparecer constantemente na mídia em manchetes polêmicas.

Em 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a ter contato com a Bossa Nova, gravando o disco “Barquinho”, pela Columbia, um marco em sua carreira e na música popular brasileira. Com o sucesso, viajou por todo o país e pelo mundo, chegando a se apresentar no Olympia em Paris, no Estoril em Portugal e no Blue Angel, em Nova York. Dona de uma voz singular, meio rouca e aveludada e de um espírito indomável, a cantora tornou-se a musa da melancolia devido às mensagens de solidão e “fossa” características de suas canções.

“Sempre vou viver como kamikaze; é isso que me faz ficar de pé”, afirmou a maior cantora da música popular brasileira, que soltou seu primeiro som em 17 de março de 1945. Carinhosamente conhecida como “Pimentinha”, Elis Regina, a pequena gaúcha de 1,53m, encantou o Brasil e o mundo com sua voz única, que aliava uma peculiar técnica à sublime emoção. Em intensos 18 anos de carreira, foram 27 LPs, 14 compactos simples e 6 duplos. Morando do Rio de Janeiro desde que atingiu a maioridade, Elis venceu o Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior no ano de 1965, cantando Arrastão, de Edu Lobo. A cantora gravou uma série de composições dos ainda pouco conhecidos Milton Nascimento, Belchior e Ivan Lins. Com Jair Rodrigues, um de seus maiores parceiros, gravou “Dois na Bossa” e, também ao seu lado, apresentou um dos programas mais importantes para a música nacional, “O Fino da Bossa”, com estréia em 65, na TV Record. Ao cantar nas TVs inglesa, belga, sueca, holandesa e suíça, Elis Regina atingiu o auge da sua carreira. Em 1974, nos Estados Unidos, ganhou fama com o disco “Elis e Tom”, feito em parceria com o maestro Tom Jobim. Seu maior show foi “Falso Brilhante”, assistido por cerca de 280 mil pessoas e muito lembrado até os dias atuais. Um de seus maiores sucessos, O Bêbado e o Equilibrista foi gravado em 1979, com autoria de João Bosco e Aldir Blanc, a mesma dupla que lhe forneceria outros inúmeros sucessos, como Mestre-sala dos Mares, Caçador de Esmeraldas e Dois pra lá, dois pra cá.

Em 22 de janeiro de 1977, o Brasil viu os olhos de oceanos se fecharem e a voz de veludo se calar. Maysa morreu num trágico acidente de automóvel na ponte Rio-Niterói, aos 40 anos, num fim de tarde que não se pode esquecer. Em janeiro de 2009, a Rede Globo exibiu a minissérie “Maysa – Quando fala o coração” em 9 capítulos do escritor Manoel Carlos e direção de Jayme Monjardim, filho da cantora. Cinco anos mais tarde, em 19 de janeiro de 1982, novamente o silêncio: os rádios e emissoras de televisão noticiavam que Elis Regina havia sido encontrada morta em seu apartamento em São Paulo. Aos 36 anos, a cantora faleceu em decorrência de uma overdose de cocaína e bebida alcoólica. Sua morte provocou um choque nacional. Sepultada no Cemitério do Morumbi, ainda hoje recebe a visita de milhares de fãs todos os anos. Deixou como legado o talento de seus três filhos, João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita, tendo esta última um timbre vocal muito semelhante ao da mãe.

Texto de Isabella Verdolin e Natália Boaventura.

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