Acreditando que a melhor maneira de celebrar o dia 14 de março é lendo poemas, publicamos aqui uma breve seleção, de autores diversos, desejando a todos um ótimo Dia Nacional da Poesia.
Em todos os texto foi preservada a grafia e a forma originais.
MANIFESTO
Antônio Barreto
Nós todos, poetas da usura menor,
devemos de dividir nossas dívidas
e nossas dúvidas
como grandes capitalistas
em falência
Nós todos, poetas na usura do amor,
precisamos tirar os sapatos, os suspensórios
e as gravatas
como nudistas num campo
(de concentração)
Nós todos, poetas na usura do suor,
necessitamos sujar as mãos de óleo
e cavoucar essa terra cansada
como grandes tatus da consciência
Não nascemos da barriga de um abutre
mas a cada dia deglutimos
e defecamos
as temperadas carniças
da humanidade
Nós, poetas dessa música sem ritmo
tocamos flauta com as mãos no bolso
se o certo é rufar tambores
e trombetas
com as mãos acima das cabeças
Se o fardo que carregamos nas costas
não é pesado na balança dos fardados
vistamos pois a poesia de medalhas
e marchemos poetando à soldadia
Se sob o sol aumentou a prestação
e o operário não continua a construção
Se tijolo após tijolo a fome cresce
e as betoneiras vão cantando a mesma prece
Falemos então, poetas, dos pequenos
das barrigas latino-americanas
dos lamentos inouvidos, dos murmúrios
e das dores do parto que abortamos
Dancemos, pois, a polca proletária
neste palco onde ninguém é proprietário
Nós todos, poetas, operários
precisar sujar as mãos com o mesmo óleo
e cavoucar o cansaço dessa terra
sem contrato na Carteira de Trabalho.
(Do livro “Vasta Fala”, de Antônio Barreto, pág. 48 e 49, obra vencedora do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura, 1988, 1º lugar na categoria poesia)
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ESFINGE
Osias Ribeiro Neves (Gurrumamm)
: que os seios da esfinge sejam de aço
aguardar o leite ou o sangue para ama-
mentar o último sobrevivente gerado no
solo vietname.
: que dos olhos da fera cresçam cris-
tais às prova de bombardeios.
: que suas mãos sejam automáticas no
decorrer do caminho & que nunca mais
seja preciso um gesto de rendição.
: que o útero da esfinge seja transmu-
tado assim que no labirinto de suas
trompas não se fecunde mais vida & que
seu ventre seja estático como estático
é o monumento, erguido na América, ao
bravo soldado consumido pela máquina
da guerra.
(Da “Revista Literária”, pág. 63, ano VIII, número 8, novembro de 1973. Poema vencedor em 1º lugar do Concurso de Poesias de 1973)
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RESSENTIMENTO
Dinaldo Domingues
Um prato vazio na mesa,
Panela não tem no fogão,
A porta é tão indefesa
Que fica amparada no chão.
Um trapo que foi um vestido
Inerte repousa num canto,
Enquanto um fraco gemido.
Simula um triste acalanto
Maluca, sem dentes, sofrida,
Sem sonho, sem banho, sem luta,
Na vida foi só uma puta!
E hoje, tão puta da vida,
Lamenta não ser jovem, linda,
Pra ser mais puta, ainda.
(Poema do livro “Brincando de Poeta” de Dinaldo Domingues, pág. 26, publicado pelo Escritório de Histórias em novembro de 2007)
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HOUDINI
Eugênio Gomez
Dissimularei com os perfumes da moda
o cheiro da chaga putrida do proleta-
riado.
Liquidarei a depressão dos anos se-
tenta com 10 miligramas do analéptico
mais moderno.
Cegarei os olhos dos descontentes nas
luzes de picadeiros ciganos.
Abafarei a paixão suicida dos cantos
guerrilheiros com o último sucesso
de Sinatra no volume máximo.
Engarrafarei o sangue marginal dos
mangues com rótulos dos melhores uís-
quês escoceses.
Cobrirei a nudez e a vergonha dos fra-
cos com a equívoca bandeira da nova
era.
Com um truque mirabolante iludirei a
fúria dos brutos, minha cartola li-
bertará os pássaros e hinos, serei um perfeito dândi nos salões cristaliza-
dos do meu palácio.
(Poema da revista “Silêncio”, pág. 49, ano I, nº 5, editada por Lúcia Afonso e Luiz Fernando Emediato, em 1974)
sexta-feira, 13 de março de 2009
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1 comentários:
Como sempre, o Escritório de Histórias surpreendendo com um conteúdo cultural e interessante!
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