sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre formas e cores de Tarsila do Amaral

Nascida no primeiro dia de setembro de 1886, Tarsila do Amaral é uma das artistas que mais se destacaram no cenário artístico brasileiro. A graciosidade feminina, misturada ao desejo de ousar, resultou em obras únicas, vibrantes e inovadoras. Marcadas pelo uso de cores vivas, formas geométricas e uma estética fora do padrão, os trabalhos de Tarsila revolucionaram a arte no Brasil e são largamente admirados até os dias atuais.

A pintora nasceu e cresceu em um ambiente rural, entre paisagens simples e pessoas humildes, cenário que contrastava com a vida aristocrática de sua família. Apesar de ter iniciado seus estudos em São Paulo, no Colégio Sion, completou-os em Barcelona, ocasião em que pintou seu primeiro quadro, Sagrado Coração de Jesus, aos 16 anos. Ainda que, desde pequena, tenha sido significativo seu contato com a arte européia, Tarsila conseguiu incorporar uma brasilidade característica ao seu trabalho.

Morro da favela, de 1924. Fonte: site oficial da artista.

Despertado o interesse pela arte, deu início aos estudos sobre escultura com Zadig e Mantovani, no ano de 1916, em São Paulo, e, no ano seguinte, estudou desenho e pintura com Pedro Alexandrino, mestre acadêmico. Em 1920 embarcou para Paris, freqüentando a Academie Julien, sob orientação de Émile Renard. Dois anos depois, participa naquela cidade do “Salão Oficial dos Artistas Franceses”, onde obteve bastante sucesso.

Casou-se por duas vezes, e com seu primeiro marido, André Teixeira Pinto, teve sua única filha, Dulce. Com o segundo companheiro, Oswald de Andrade, renomado escritor do cenário brasileiro, Tarsila iniciou o namoro na época do “grupo dos cinco” que, contava ainda com Anita Malfatti, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nesse contexto, ainda que não tenha participado da “Semana de 22”, integrou-se ao Modernismo, participando ativamente da renovação da arte brasileira que ocorreu na década de 1920. Na companhia do escritor francês Blaise Cendrars, Tarsila percorreu as cidades históricas mineiras, encantando-se com a decoração popular das casas. Nesse período, assimilou a tradição barroca brasileira às teorias e práticas cubistas adquiridas na Europa, o que resultou na obra Pau-Brasil. Além de ter inspirado um movimento variante do cubismo no Brasil, a pintura influenciou Portinari.

Como presente ao marido, pintou Abaporu (o homem que come, em tupi) em 1928, dando início ao Movimento Antropofágico brasileiro, fase mais importante da carreira da pintora. O movimento, liderado por Oswald de Andrade, propunha o retorno ao primitivo, a "deglutição" da cultura européia, transformando-a em algo mais brasileiro. Com a obra Operários, de cores mais sombrias, mas que mantinham a nitidez característica de suas obras, a artista iniciou a pintura social no país.


Manacá, de 1927. Fonte: site oficial da artista.

Nos anos cinqüenta, Tarsila retomou a temática de paisagens e cores brasileiras, que a caracterizaram anteriormente, voltando à pintura Pau-brasil, então intitulada Neo Pau-Brasil. Em 51, participou da “I Bienal de São Paulo”, marcando presença ainda na mostra “Arte Moderna no Brasil em 57”. Tal foi sua importância no cenário brasileiro que, em 1960, foi prestigiada com uma retrospectiva de sua obra organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Participou ainda da “XXXII Bienal de Veneza”, em 64 e da mostra “Arte da América Latina desde a Independência”, dois anos depois. Dentre seus trabalhos, destacam-se ainda A negra, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e São Paulo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Tarsila do Amaral faleceu na cidade de São Paulo, em 17 de janeiro de 1973, aos 86 anos, deixando cerca de duzentas obras, entre quadros, desenhos e esculturas. Até então, a artista integrou diversas exposições no Brasil e no exterior, apresentado sempre telas ricas em cores e formas, que marcavam presença onde eram expostas. Com todo o seu legado, Tarsila auxiliou a mudança do rumo da arte brasileira, contribuindo para a consolidação da pintura nacional.

Para visualizar algumas telas e conhecer a história dos quadros, acesse o site oficial http://www.tarsiladoamaral.com.br/, onde o Abaporu aparece logo na abertura.

Texto de Natália Boaventura.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

João: um pequeno nome, dois grandes autores

O nome “João” pode ser definido por muitos como comum, simples, desses que se vê aos montes. Mas é um nome forte e possui uma envergadura que suas poucas letras podem não demonstrar logo de início. Em nossa literatura, por exemplo, encontramos além de Guimarães Rosa, dois escritores de nome “João” que nasceram no mês de janeiro e que não só revolucionaram a literatura brasileira, como mudaram seu curso e marcaram época. João Cabral de Melo Neto, nascido na capital de Pernambuco ao nono dia do mês em 1920, passou a infância em engenhos de açúcar, tendo a vida no campo influenciado profundamente o poeta. João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 em solo baiano, na Ilha de Itaparica, em 1941, tendo vivido em Aracaju (SE) quando criança. Entre semelhanças e notórias distinções, os escritores possuem uma rica coletânea de obras, lidas e relidas até os dias atuais, que retratam um Brasil de muitos brasis.

João Cabral, além de poeta, foi um importante diplomata, tendo ingressado na carreira em 1945 por meio de um concurso. Durante quarenta anos, viveu no exterior, desenvolvendo boa parte de sua obra literária em países como Espanha, França, Inglaterra, Senegal, Equador e Portugal. Na Europa, o poeta nunca se esqueceu de sua terra natal e ampliou suas impressões acerca do Brasil. Suas vivências na Espanha, especialmente, fizeram com que o olhar de Cabral se voltasse para a poesia e o romanceio popular do Nordeste. Cabral tinha também um lado mais artístico, em que falava de talentos como Miró e Paul Valéry. Durante os anos em que esteve vivo, publicou títulos que se destacaram no cenário da literatura e foram traduzidos para várias línguas, como Pedra do Sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem Plumas (1950), Quaderna (1960), Morte e vida severina (1965) e Auto do frade (1984). O poema dramático “Morte e vida Severina” trouxe reconhecimento popular ao escritor, tendo sido musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), na década de 60.

A poesia de João Cabral é caracterizada pela objetividade, muitas vezes marcado por temas sociais e, em certos casos, pela tendência ao surrealismo. Em toda a sua obra, o poeta apresentou certa preocupação com a estética da poesia, sendo autor de escrita mais racional, de linguagem concisa e elíptica. Apesar de ter tido contato com a variedade sonora dos ritmos pernambucanos, a musicalidade não esteve muito presente em seus versos. Por suas obras, João Cabral recebeu uma série de prêmios importantes nacionais e internacionais ao longo de sua carreira. Em agosto de 1968, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Assis Chateaubriand, cadeira número 6. Em 1990, foi eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que o faria perder a visão gradativamente, o poeta anunciou que iria parar de escrever. Aos poucos, foi perdendo também a vontade de falar, argumentando não ter muito mais o que dizer. João Cabral de Melo Neto morreu em 1999, no dia 09 de outubro, deixando saudade e um extenso e rico conjunto de palavras.

O segundo João conta com o extenso sobrenome de Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, sendo mais conhecido como João Ubaldo, somente. Tendo crescido sob a rígida educação do pai, iniciou sua carreira jornalística no “Jornal da Bahia” em 1957 e, posteriormente, foi transferido para “A Tribuna da Bahia”, no qual chegou a exercer o cargo de editor-chefe. Mais tarde, em 1981, iniciou colaboração com o jornal “O Globo”, no qual publica crônicas uma vez por semana, até os dias atuais. Apesar de ter se formado em Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), nunca chegou a exercer a profissão. Além disso, foi professor da Escola de Administração e da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia e professor da Escola de Administração da Universidade Católica de Salvador. Em 1964, época em que o Brasil vivia um contexto de efervescência política, o escritor partiu para os Estados Unidos, em razão da conquista de uma bolsa para fazer seu mestrado em Administração Pública e Ciência Política na Universidade da Califórnia do Sul. O movimento revolucionário não tinha conhecimento dessa viagem e, durante sua ausência, o esquerdista João Ubaldo teve sua imagem divulgada em redes da televisão baiana, juntamente aos dizeres “Procura-se”. Confirmando certo viés político, lançou, em 1981, Política, que é recomendado como bibliografia por inúmeras faculdades até hoje.

Apesar de também ter escrito livros infantis, obteve destaque através da publicação de textos mais elaborados. Viva o povo brasileiro, romance iniciado em 1982 e editado dois anos depois, é uma de suas principais obras, tendo recebido o "Prêmio Jabuti" e o Golfinho de Ouro, do governo do Rio de Janeiro. No carnaval de 1987, o livro foi escolhido como samba-enredo da escola Império da Tijuca. João Ubaldo publicou uma série de títulos de sucesso, como Setembro não tem sentido (1968), Sargento Getúlio (1971), O sorriso do lagarto (1989), A casa dos budas ditosos (1999), Miséria e grandeza do amor de Benedita (primeiro e-book lançado no Brasil, em 2000) e Diário do Farol (2002). Além de várias de suas obras terem sido traduzidas para outras línguas, algumas foram adaptadas para o cinema, televisão e teatro. Tal como Cabral, João Ubaldo foi largamente premiado, inclusive internacionalmente. Grande retratador do país, tem um estilo permeado por ironia e sensualidade ao retratar o contexto social do Brasil, além de pitadas de humor mesmo em narrativas densas. Entre a realidade crua e aquela travestida da tipicidade brasileira, o autor reinventa o país e sua gente, sendo considerado, por muitos, como um porta-voz da nação.

Ver o Brasil através dos textos destes dois autores de nome João nos fornece impressões que ora se assemelham e ora se distinguem, seja pelo estilo de cada um, pela trajetória de vida e pelo modo de olhar o país e o mundo. São escritores que falam com maestria de um Brasil que pode ser muitos brasis ao mesmo tempo, resgatando a grandeza e o mistério existentes na simplicidade. Algo que o nome “João” retrata com exatidão.

Texto de Natália Boaventura e Isabella Verdolin