terça-feira, 31 de março de 2009

A Psicanálise poética de Hélio Pellegrino

Minas Gerais é a terra do pão de queijo, de moça bonita e de poeta talentoso. Nascido na cidade de Belo Horizonte em 05 de janeiro de 1924, Hélio Pellegrino se destacou no cenário literário nacional e tornou-se referência na vida política e cultural brasileira. Por meio de artigos publicados em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, Hélio discutiu com maestria a sua especialidade, a Psicanálise, e os caminhos da religião, política, arte, economia e literatura.
Filho de Braz Pellegrino, famoso médico da cidade, e Assunta Magaldi Pellegrino, nascida no sul da Itália, o poeta tornou-se amigo de Fernando Sabino logo quando criança, amizade que perdurou por toda a sua vida. Logo cedo, demonstrou seu interesse por literatura e, aos 14 anos, dedicou-se à leitura de Carlos Drummond, ocasião em que começou a escrever seus primeiros poemas.

Em 1940, Hélio fortificou laços de amizade com Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, formando, assim, o grupo que ficou conhecido como “os quatro mineiros”. Dois anos depois, o poema “Deixai-o”, considerado sua primeira obra significativa, foi publicado na revista católica A ordem. No mesmo ano, por pressão da família, ingressou na faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, em 1943, decidiu se especializar na área da medicina psiquiátrica.

Desde os tempos de estudante, Hélio participou ativamente da vida política do país, porém, sem nunca abandonar o seu viés literário. Em 1944 editou o jornal clandestino Liberdade na companhia de Otto Lara Resende, Darci Ribeiro, Francisco Iglesias, Simão Vianna de Cunha Pereira e Wilson Figueiredo. No ano seguinte, participou da fundação da União Democrática Nacional (UDN), que, apesar de ter sido voltada, num primeiro momento, contra a ditadura estadonovista, caracterizou-se essencialmente pela oposição constante a Getúlio Vargas e ao getulismo. Após ter concorrido ao cargo de deputado federal pelo partido, Hélio se desligou da UDN em 1946 e fundou a Esquerda Democrática, ligada diretamente ao Partido Comunista.

Em 1947, o poeta publicou um livreto com dois poemas (“Poema do príncipe exilado” e “Deixe que eu te ame”) através do grupo literário “Edifício”. No mesmo ano, iniciou a prática psiquiátrica no manicômio Raul Soares, em Belo Horizonte, abrindo seu consultório particular em 1950 no Hospital de Neuropsiquiatria infantil. Com o propósito de se formar psicanalista, Hélio começou uma análise didática com Iracy Doyle, interrompida em 1956 pelo seu falecimento. Dois anos depois, retomou a análise com Dona Catarina Kemper, para se formar em 1963.

Hélio Pellegrino foi homem de família grande. Em 1948, casou-se com Maria Urbana Pentagna Guimarães, mulher que permaneceu como sua companheira por quarenta anos e com quem teve sete filhos. Em 1974, o psicanalista casou-se com a física Sarah de Castro Barbosa, união que durou sete anos. Em 1985, Hélio conheceu Lya Luft, romancista e poetisa brasileira, com quem trocou cartas durante algum tempo e veio a se casar no ano seguinte.

Quando mudou-se para o Rio de Janeiro com sua família, em 1952, Pellegrino começou a trabalhar como redator no jornal O Globo e, em 1964, iniciou a colaboração para o Correio da Manhã, atividade que manteve por quatro anos. Participou do O Pasquim entre 1978 e 1980. Fiel às suas convicções na luta pelos direitos de cidadania, Hélio Pellegrino batalhou duramente contra a Ditadura Militar e contra as posições da sociedade psicanalítica, que criticava sua postura em relação ao regime de exceção. Em 1968 discursou na “Passeata dos Cem Mil”, uma manifestação de protesto por decorrência da morte de um estudante. Devido a sua ousadia em uma época de censura e tensões, Hélio foi mantido preso durante dois meses em 1969, tendo sido processado sob a acusação de líder comunista. Em 1980, o psicanalista aderiu ao manifesto de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) juntamente a Mário Pedrosa, Lula, Antonio Candido, Apolônio de Carvalho e Sérgio Buarque de Hollanda. Dois anos depois, iniciou a colaboração para o jornal Folha de São Paulo, que duraria três anos e meio.

Em 1988, o Brasil perdeu um grande psicanalista, poeta e defensor da liberdade do homem. Seu coração achou que já era hora de parar, levando-o ao falecimento. Como prova do seu brilhantismo em vida, foram realizados uma série de lançamentos póstumos, como a seleção de poemas Minérios domados (Ed. Rocco), organizada por Humberto Werneck, em 1993, e o livro Hélio Pellegrino, a paixão indignada (Ed. Relume Dumará) de Paulo Roberto Pires, em 1998. Em 2004, a editora Bem-Te-Vi publicou o “Arquivinho de Hélio Pellegrino", disponível neste link. No mesmo ano, chegou às livrarias Lucidez Embriagada (Ed. Planeta), com organização de Antônia Pellegrino, neta do autor. Hélio deixou saudades, mas sua obra e seu exemplo de luta, sem dúvida, não serão esquecidos.

Texto de Natália Boaventura

La Vida es Sueño
(Hélio Pellegrino)
A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.

O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia Nacional da Poesia

Acreditando que a melhor maneira de celebrar o dia 14 de março é lendo poemas, publicamos aqui uma breve seleção, de autores diversos, desejando a todos um ótimo Dia Nacional da Poesia.

Em todos os texto foi preservada a grafia e a forma originais.


MANIFESTO
Antônio Barreto

Nós todos, poetas da usura menor,
devemos de dividir nossas dívidas
e nossas dúvidas
como grandes capitalistas
em falência

Nós todos, poetas na usura do amor,
precisamos tirar os sapatos, os suspensórios
e as gravatas
como nudistas num campo
(de concentração)

Nós todos, poetas na usura do suor,
necessitamos sujar as mãos de óleo
e cavoucar essa terra cansada
como grandes tatus da consciência

Não nascemos da barriga de um abutre
mas a cada dia deglutimos
e defecamos
as temperadas carniças
da humanidade

Nós, poetas dessa música sem ritmo
tocamos flauta com as mãos no bolso
se o certo é rufar tambores
e trombetas
com as mãos acima das cabeças

Se o fardo que carregamos nas costas
não é pesado na balança dos fardados
vistamos pois a poesia de medalhas
e marchemos poetando à soldadia

Se sob o sol aumentou a prestação
e o operário não continua a construção

Se tijolo após tijolo a fome cresce
e as betoneiras vão cantando a mesma prece

Falemos então, poetas, dos pequenos
das barrigas latino-americanas
dos lamentos inouvidos, dos murmúrios
e das dores do parto que abortamos

Dancemos, pois, a polca proletária
neste palco onde ninguém é proprietário

Nós todos, poetas, operários
precisar sujar as mãos com o mesmo óleo
e cavoucar o cansaço dessa terra
sem contrato na Carteira de Trabalho.

(Do livro “Vasta Fala”, de Antônio Barreto, pág. 48 e 49, obra vencedora do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura, 1988, 1º lugar na categoria poesia)

* * * * *

ESFINGE
Osias Ribeiro Neves (Gurrumamm)

: que os seios da esfinge sejam de aço
aguardar o leite ou o sangue para ama-
mentar o último sobrevivente gerado no
solo vietname.
: que dos olhos da fera cresçam cris-
tais às prova de bombardeios.
: que suas mãos sejam automáticas no
decorrer do caminho & que nunca mais
seja preciso um gesto de rendição.
: que o útero da esfinge seja transmu-
tado assim que no labirinto de suas
trompas não se fecunde mais vida & que
seu ventre seja estático como estático
é o monumento, erguido na América, ao
bravo soldado consumido pela máquina
da guerra.

(Da “Revista Literária”, pág. 63, ano VIII, número 8, novembro de 1973. Poema vencedor em 1º lugar do Concurso de Poesias de 1973)

* * * * *

RESSENTIMENTO
Dinaldo Domingues

Um prato vazio na mesa,
Panela não tem no fogão,
A porta é tão indefesa
Que fica amparada no chão.

Um trapo que foi um vestido
Inerte repousa num canto,
Enquanto um fraco gemido.
Simula um triste acalanto

Maluca, sem dentes, sofrida,
Sem sonho, sem banho, sem luta,
Na vida foi só uma puta!

E hoje, tão puta da vida,
Lamenta não ser jovem, linda,
Pra ser mais puta, ainda.

(Poema do livro “Brincando de Poeta” de Dinaldo Domingues, pág. 26, publicado pelo Escritório de Histórias em novembro de 2007)

* * * * *

HOUDINI
Eugênio Gomez

Dissimularei com os perfumes da moda
o cheiro da chaga putrida do proleta-
riado.

Liquidarei a depressão dos anos se-
tenta com 10 miligramas do analéptico
mais moderno.

Cegarei os olhos dos descontentes nas
luzes de picadeiros ciganos.

Abafarei a paixão suicida dos cantos
guerrilheiros com o último sucesso
de Sinatra no volume máximo.

Engarrafarei o sangue marginal dos
mangues com rótulos dos melhores uís-
quês escoceses.

Cobrirei a nudez e a vergonha dos fra-
cos com a equívoca bandeira da nova
era.

Com um truque mirabolante iludirei a
fúria dos brutos, minha cartola li-
bertará os pássaros e hinos, serei um perfeito dândi nos salões cristaliza-
dos do meu palácio.

(Poema da revista “Silêncio”, pág. 49, ano I, nº 5, editada por Lúcia Afonso e Luiz Fernando Emediato, em 1974)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Mulheres: ainda precisamos de um dia?

Em 08 de março celebra-se o Dia Internacional da Mulher nos 4 cantos do planeta. Propagandas, comerciais, músicas, luzes cor-de-rosa sobre monumentos, seminários, convenções, encontros... tudo voltado para a comemoração da data. Mas, afinal, é mesmo necessário marcar uma data para celebrar as mulheres?

Desde 1910, ano da II Conferência Internacional de Mulheres na Dinamarca, vários países comemoram a data em homenagem às mulheres. Instituído oficialmente pela Organização das Nações Unidas em 1975, o dia foi escolhido em memória às operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque que, em 08 de março de 1857, realizaram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho, redução da carga diária, equiparação de salário com os homens e tratamento mais digno. Reprimida com total violência, a manifestação resultou na morte de todas as tecelãs, que foram carbonizadas no interior da própria fábrica. Assim, o objetivo da data não se resume à comemoração, mas suscita uma reflexão acerca do que se passou e da situação feminina nos dias de hoje. Por todo o mundo realizam-se conferências, debates e reuniões para discutir o papel da mulher na sociedade atual, como meio de incentivar sua valorização e reconhecimento.

Clique na imagem para ler "No silêncio das fêmeas", de Osias Ribeiro Neves.

Historicamente, as mulheres precisaram de autorização para tornarem-se cidadãs. No Brasil, só alcançaram o direito ao estudo fundamental em 1827 e ao ensino superior, em 1879. Para votar e serem votadas, precisaram aguardar o Novo Código Eleitoral promulgado por Getúlio Vargas em 1932. O movimento feminista se fazia presente desde o início do século XX em pontos diferentes do mundo e espalhou-se de maneira mais contundente em meados da década de 60, com o advento da pílula anticoncepcional. Era mal visto por boa parte da sociedade, por vezes questionado com veemência pelas próprias mulheres, que não viam sentido em “competir” com os homens e “abandonar” as tarefas do lar. Os homens, por sua vez, não viam com bons olhos as mudanças na maneira de vestir, de se comportar e sobretudo de discordar das mulheres, que acreditavam ser possível não depender da autorização de pais ou maridos para decidir o que fazer de suas vidas. Foi um tempo de efervescência cultural e de profundas transformações sociais no mundo ocidental, estendendo-se até meados da década de 80.

De lá para cá, por incrível que pareça, ainda existem mulheres que enfrentam esses desafios em seu cotidiano, seja nos rincões do interior do Brasil ou em países com tradições culturais que submetem as mulheres a situações de dor e sofrimento. Nos dias atuais, as diferenças salariais e de oportunidades de trabalho entre homens e mulheres permanecem, ainda que escamoteadas ou já em processo de redução. Mas cresce a cada dia o número de pessoas que mais do que acreditar na igualdade dos gêneros, age em prol das mudanças que se fazem necessárias. Afinal, homens e mulheres são mesmo diferentes, mas são fundamentais para compor a espécie humana. A convivência harmoniosa entre os gêneros nunca foi tão desejada e necessária em todo o mundo. Enquanto essa meta não for alcançada, precisaremos sim de ao menos um dia do ano para refletir sobre essas questões e celebrar o que já foi conquistado.Texto de Isabella Verdolin e Natália Boaventura.